infância
Era óbvio o que ele pensava. Estava em seu olhar, no jeito de falar, nos comentários soltos, nas palavras faladas ao acaso. Aquela percepção abstrata se tornava concreta em raras ocasiões. Raras, mas violentamente fortes para mim: de uma violência surda, feita de pequenos gestos, de curtos olhares, de poucas palavras.
Fazia pouco que percebera tudo aquilo. Minha primeira reação foi fugir, mas não sabia direito para onde, não conseguia especificar ainda do que. Ainda era muito tênue a compreensão, pois tinha uma consciência excessivamente infantil de tudo aquilo.
Então, pra fugir daquela sensação, me refugiava nas coisas que mais gostava: nos meus pensamentos, nas palavras, nos textos, nas histórias, nos sonhos, nos livros, nas idéias. Comecei a me desconectar daquele mundo, pois enquanto apenas pensava era feliz. E ia longe, e me orgulhava. Mas, invariavelmente, o silêncio me chamava de volta. Odiava ter que voltar a pisar o chão e reviver a tirania dos olhares, dos bordões, dos silêncios… Da ausência.
E não pense que minhas fugas para mim mesmo passassem desapercebidas: ele fazia questão de destruir todo meu mundo particular: toda contemplação, todo prazer, toda descoberta, era imediatamente esmagada. Está errado! Besteira! Deixa de ser abestado! Toda a incomensurável humanidade que havia em mim era devidamente tolhida, todo o meu sentimento – sim, era um mar de sentimentos – tachado como coisa de mulher, ou de idiotas. Abestado! Abestado!
Ele queria-me diferente: as minhas fugas só o incomodavam mais. Tentei ser. A partir de então, e por muito tempo, tentei agradar, a qualquer custo. Tentava agradar a todos, sonhava ouvir um elogio. Talvez, se fosse muito bom, poderiam me elogiar a ele: eu precisava ser aceito, não importava a que preço. Mas, diferentemente do que parece, nem eu me dava do que estava fazendo e, sem perceber, comecei a me negar. Negava tudo o que era, tudo o que queria. Não importava minha opinião real, não importava o que desejava, não importava o que sentia: só precisava agradar… Eu tinha que agradar.
Por um bom tempo foi assim. Mas os olhares eram os mesmos, os silêncios eram os mesmos, e tudo era cada vez mais óbvio à medida que minha percepção do mundo se tornava menos infantil. Ainda tentava agradar a todos, mas não mais conseguia ficar longe do meu refúgio: enfiava-me agora em histórias e biscoitos. Auto-flagelação, medo? Talvez. Não importava. Já era claríssimo que não era eu.
Até que começou a chegar o tempo em que quis ser aceito em outros lugares. A escola foi o mais óbvio, e o primeiro deles. E tinha um trunfo na manga: minha já afiadíssima capacidade de agradar, em negação a qualquer desejo meu. Então, ao invés de usar a minha capacidade para ser o melhor da turma, como me era muito fácil, tentei me juntar aos outros, aos normais. Mas, triste descoberta, eles também queriam o mesmo que ele: exatamente o que eu não era. Neguei-me ainda mais.
Fui então, a cada dia, buscando destruir tudo o que era. Parecia-me que o único caminho era destruir-me, mudar-me, inverter-me, afinal, tanto ele quanto os outros -meus colegas, e minhas colegas – pareciam querer exatamente o oposto de mim. Logo, o caminho correto, o caminho que me levará à aceitação, pensava eu, é o de ser exatamente o que não sou, e agradar a todos, naturalmente.
Mas foi sem sucesso. Como resultado posso dizer apenas que me Destruí. Não tive lá nem cá aceitação: era abominável para ambos os mundos. Em casa, não fui o filho esperado; entre os colegas, não era o amigo desejado. Meu semblante era feio e gordo demais, meus modos por demais gentis, meus gostos por demais cultos, minhas habilidades opostas às que queriam ver. Era a chacota. O objeto de riso, o idiota a quem pisar. A pessoa de quem se afastar. Destruí-me. Tentei, em cada palavra, em cada gesto, em cada ação, matar o monstro que rejeitavam: eu mesmo.
E, hoje, não sei muito bem o que sobrou disso tudo. Não sei mais onde termina a mentira, a máscara, e onde começo eu. Nem mais sei se existo, não sei o que sobrou de mim além da capacidade aguda de sentir. Destruí-me em todos os sentidos. Não sei mais pensar, nem nunca fui capaz de agradar às mulheres. Perdi a força inquebrantável dos sonhos, e não ganhei em troca a malandragem cotidiana dos que vivem no mundo real. Sou uma sombra. Incapaz de aceitar a mim mesmo, e de conviver com os outros.
Vivo hoje nas sombras dos meus medos, na desesperança e solidão absurda de quem se odeia profundamente.
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~ por anjocaido em 15 02, 2010.
Publicado em reflexões
Tags: auto-estima, bullying, infância, rejeição, tristeza

