O Espelho
Leio, perdidamente,
O profundo livro que se me pôs à mão;
Ouço, longamente, à insana canção e
feliz, deixo, por um instante, de ser vão;Levanto-me então altivo,
e vou à terra conquistar.
Sinto-me capaz, livre, bendito:
não há caminho que não possa trilhar.Mas, acontece, e não há real motivo,
de no caminho o espelho estar.
Embebedado que estava pela esperança,
leva ainda alguns segundos até despertarEm meu fulgor esqueci-me do que era,
e do que sempre me fez perecer.
Assim, de repente, tive que voltar à vida,
e o peso fez-me o corpo pender.É que rapidamente vieram-me lembranças
de palavras, frases, olhares, sensações,
percorreram-me a alma com intensidade,
e levaram consigo minhas breves contemplações.Coloquei-me então a fitar, tal qual criança,
A face feia no espelho: Meus defeitos,
- minha incurável discrepância –
Meu eu, meu insólito viveiro.Mas não foi longo o torpor,
É que em meus olhos logo brotaram lágrimas;
E o desdém amigo
Veio dissipar-me a dor.

