Carta a meu alter-ego

o-alienista

Caríssimo Alter-ego,

Quanto tempo! Há muito não me dirijo a ti. Mas, sabes, os tempos não são de calmaria. Minha alma não anda para felicidades, nem minha mente para conversações.

Meu caro amigo, se tu soubesses o quanto ando confuso, o quanto as coisas me parecem caminhar por si mesmas. Ou melhor, não diria que as coisas caminham por si sós, mas que eu as faço caminharem por si mesmas. Acho que criei um Hegelianismo-comtiano pessoal… Estou tentando me enfiar nas leis da história, tentando crer, a qualquer custo, que meu futuro está irremediavelmente traçado e que minha capacidade é irremediavelmente insuperável, que todo o torpor é nada além de coisa de momento…Louco! Há vezes em que creio que sou louco…

Não te rias de mim! Não me interpoles logo no início… Deixe-me falar, deixe-me contar o que se passa, desabafar minhas loucuras, dizer-te meus sentimentos tão surreais…Far-me-á bem, estou certo. Portanto, se realmente gostas de mim, deixe-me dizer-te essas coisas tão absurdas e insanas que parecem sair de mim a cada passo que dou, a cada respiro. Não! Não te enfadonhes, não permitirei.

Bem. Melhor será se organizar minhas idéias, não é mesmo? Que tal começarmos pelo agora, deixando o antes para depois? Ótimo. Ótimo que concordes comigo. Contar-te-ei do presente momento, creio que é um bom começo falar do agora porque ele já será passado quando lerdes isso, de forma que não te estarei, em qualquer hipótese, a contar o futuro.

Caro,

Estou neste momento sentado em frente a meu computador, digitando. Claro! Ainda não tenho sistema de escrita via voz, e, até onde eu saiba, tal sistema ainda merece bons melhoramentos antes de tornar-se comum. Pois bem. Agora são uma hora e onze minutos da manhã de segunda-feira, dia oito de agosto de 2005. Hoje, às oito, terei que estar na faculdade… Poderia estar dormindo desde as vinte e duas, mas não o fiz. Disse-me a mim que estudaria, mas não o fiz (como podes perceber). Aliás, minhas promessas andam valendo menos do que as de um estelionatário. Confio em mim menos do que em qualquer outro mortal. Essa é uma das facetas de meu comportamento louco… Insano.

Tamanho e tão louco estou que, mesmo aqui, a conversar contigo, sinto uma imensa necessidade de parar. Qualquer possibilidade de progresso, de melhoria real, me é barrada por uma força estranha- que não estou bem certo se sou eu – mas que me impede de agir. Tudo o que é bom para mim é imediatamente rejeitado e convertido em algo ruim. Se quero estudar, acabo por beber, se quero ser gentil, torno-me um asno de ranzinza, se quero apenas me concentrar em minha atividade presente, nada posso fazer a não ser pensar em todas as coisas do mundo ao mesmo tempo, escondendo-me na escuridão de minhas abstrações inexistentes… Confesso-te: vivo num inferno.

Não, nada do que te digo é novo. Nenhum desses comportamentos surgiu ontem, mas vêm de longa data… Fadigam-me por muito mais do que alguns dias.

Mas, essa é apenas a primeira carta, impossível é que diga mais do que foi dito hoje. Não tenho capacidade, e muito menos paz, para isso… Seguirei tentando abarcar o mundo com minha ignorância.

~ por anjocaido em 08 10, 2009.

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