boys don’t cry
![]()
Em minhas andanças pela internet, em geral bastante inúteis, dei de cara com uma pergunta, feita por uma garota de 19 anos, sobre a possibilidade de um homem sofrer por amor. Ela questionava, de forma não irônica, algo que é para mim um truísmo.
Os mais apressados imediatamente a rotularam – não sem alguma razão – de idiota (Zezé Di Camargo e Luciano que o digam). Mas, uso a pergunta para discorrer sobre o estereótipo do que é ser homem – o que não se confunde com o do que é ser humano.
Tanto homens quanto mulheres aprendem, desde cedo, o que significa ter um determinado sexo. E aqui não me refiro apenas à preferência pelo sexo oposto ou o uso de determinados tipos de roupa, mas a uma série de comportamentos e atitudes que se deve ter para não se ser “diferente”. Entretanto, me perdoem as feministas, creio que os homens têm um caminho mais estreito a seguir para, sendo heterossexuais, não se verem discriminados.
Aprendemos que ser “homem” é muito mais que ter um penduricalho entre as pernas ou atração sexual por fêmeas. Ser homem é adequar-se a um estereótipo que não aceita muitas alternativas: boys don’t cry. Desde a insensibilidade, passando pela promiscuidade, caminhando pela falta de vaidade e chegando até a indiferença pelos sentimentos próprios e alheios, o “ser homem” é um pacote que nos entregam pronto. Não é sem razão que me ensinaram ainda criança que homens não podem ser sensíveis, que homens não choram, não amam, não sentem, não têm vaidade, não apreciam arte, não lêem poesia, não têm amigas (mas têm amantes), traem, são machões e têm um certo instinto animal, meio assassino. Homens têm que proporcionar prazer, têm que tomar a iniciativa, têm que ser fortes, têm que ser conquistadores, bons de cama, têm que sustentar a família… Homens têm que ser homens.
Se há mulheres que lêem este texto reviram-se na cadeira, eu sei. O que ocorre é que, apesar das inúmeras, incontáveis e desumanas repreensões sociais que pesam sobre as adoradoras de Vênus, em poucas delas é o ser “mulher” que está em jogo. Aliás, nem mesmo o homossexualismo, por si só, constitui razão para que se considere uma mulher menos “mulher”. A ameaça que paira sobre a maioria delas é a da devassidão, de ser puta. É o rótulo da libertinagem que as persegue.
Em qualquer caso, independentemente da discussão de qual dos sexos é mais ou menos tolhido socialmente, é um fato que nos vemos diante de um imenso paradoxo: ao mesmo tempo em que o feminismo conquistou um tremendo espaço para as liberdades e o desenvolvimento do potencial feminino e que o movimento gay tirou do armário milhões de homens e mulheres, o “ser homem” continua quase o mesmo. As conquistas dos direitos civis e sexuais para as mulheres e para os homossexuais não implicaram modificação na visão que se tem do gênero masculino. Criou-se um novo sexo, humanizou-se a mulher, mas o papel desempenhado pelo homem continua o mesmo.
Não é difícil ver que tanto feministas quanto gays, e nós mesmos, continuamos a acreditar nesse mito da masculinidade. Bilhões de meninos são ainda tolhidos a duas escolhas bem simples: a de ser homem, e de se adequar ao modelo pré-estabelecidos do que isso significa, ou ser gay.
Tanto é assim que não tenho dúvidas de que, para a garota que não acredita que os homens também sofram por amor, os gays amem. É a perplexidade de nosso tempo.

oi
Gostei muito do seu posicionamento. Sou um estudioso das questões da masculinidade. Acho que os homens podem ser o que se acha que eles nao podem ser. Dito de outro modo podemos chorar, ou melhor, devemos chorar, podemos ter amigas sem que elas sejam transas, podemos ser sensiveis continuando sendo homens. O que acho que não podemos continuar fazendo é usando da violencia contra mulheres, gays, lésbicas, negros e negras, enfim, nao podemos usar de qualquer subtefugio para exercer um poder atribuido ao genero masculino. É importante continuarmos tentando mudar a cabeça de homens e mulheres que atribuem aos homens um poder construido por todos e todas.