liberdade de criação

•21 10, 2009 • Deixe um comentário

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     Qualquer forma expressão verdadeira  (aquela real, que nos arrebata e que diz mais do que simplesmente o que os outros querem ouvir) exige do homem profunda sinceridade. Exige que sejamos tão sinceros a ponto de acreditarmos em nós mesmos (e isso não é fácil!), mergulhando nos recônditos de nosso pensamento mais abissal. Só assim, só com essa profunda meditação, que é a sinceridade consigo, é que alguém pode produzir uma verdadeira obra, seja ela científica ou artística. Um homem só é capaz de produzir algo de profundo se ele mesmo for nas profundezas de seu ser.

     Entretanto, não poucos são os que têm muito a contribuir: dar-nos obras sem par, ou mesmo – quem sabe? –  revoluções no esquema de nosso mundo –  mas que nunca o farão, porque são tolhidos pelas nove-horas e formalismos da criticidade limitada. Assim, esses homens, atordoados pela crítica-pela-crítica que ecoa de cabeças vazias, desistem, perdem a confiança naquilo que –sabem – os obtusos lutarão para desmoralizar, se abatem ante os críticos imaginários que esperam vir (e provavelmente virão) e a provável incompreensão.

     Essa é, sem dúvidas, a pior forma de crítica - a prévia, aquela que antecede o crítico existente, mas o imagina, o pressente. Essa auto-limitação impede a verdadeira criação, o verdadeiro pensamento. Nos limita ao comum, nos aniquila enquanto humanos, enquanto pensadores.

     O homem que cria não pode ser um crítico de tudo e de todos: isso destrói toda liberdade inerente, e limita o alcance do pensamento ao existente, ou mais: ao aplaudido. Para criar, (e aqui peço perdão para a frase que soa tão senso-comum) há de haver ousadia, rumar ao desconhecido. É preciso amar o saber de tal forma  que permita ir além dos limites dotempo e do mundo.

     O senso crítico é inerente a todos que pensam: é requisito para a elevação, sim, isso é fato. Porém, a crítica barata e desconcertante (a que vê mácula em tudo o que não é passado, em tudo o que não é glorificado pelos mortos) é o tom do pensamento dos homens que decoram os manuais da crítica literária, artística ou científica. São esses os homens que devem evitar os criadores, são essas idéias de que devem fugir os que pensam. Os verdadeiros artistas, os verdadeiros pensantes não podem construir assim. Só a sinceridade real permite a  arte e o pensar.

hai kai

•08 10, 2009 • Deixe um comentário

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Observo.

o vento sopra

a folha gira

a folha cai

Carta a meu alter-ego

•08 10, 2009 • Deixe um comentário

o-alienista

Caríssimo Alter-ego,

Quanto tempo! Há muito não me dirijo a ti. Mas, sabes, os tempos não são de calmaria. Minha alma não anda para felicidades, nem minha mente para conversações.

Meu caro amigo, se tu soubesses o quanto ando confuso, o quanto as coisas me parecem caminhar por si mesmas. Ou melhor, não diria que as coisas caminham por si sós, mas que eu as faço caminharem por si mesmas. Acho que criei um Hegelianismo-comtiano pessoal… Estou tentando me enfiar nas leis da história, tentando crer, a qualquer custo, que meu futuro está irremediavelmente traçado e que minha capacidade é irremediavelmente insuperável, que todo o torpor é nada além de coisa de momento…Louco! Há vezes em que creio que sou louco…

Não te rias de mim! Não me interpoles logo no início… Deixe-me falar, deixe-me contar o que se passa, desabafar minhas loucuras, dizer-te meus sentimentos tão surreais…Far-me-á bem, estou certo. Portanto, se realmente gostas de mim, deixe-me dizer-te essas coisas tão absurdas e insanas que parecem sair de mim a cada passo que dou, a cada respiro. Não! Não te enfadonhes, não permitirei.

Bem. Melhor será se organizar minhas idéias, não é mesmo? Que tal começarmos pelo agora, deixando o antes para depois? Ótimo. Ótimo que concordes comigo. Contar-te-ei do presente momento, creio que é um bom começo falar do agora porque ele já será passado quando lerdes isso, de forma que não te estarei, em qualquer hipótese, a contar o futuro.

Caro,

Estou neste momento sentado em frente a meu computador, digitando. Claro! Ainda não tenho sistema de escrita via voz, e, até onde eu saiba, tal sistema ainda merece bons melhoramentos antes de tornar-se comum. Pois bem. Agora são uma hora e onze minutos da manhã de segunda-feira, dia oito de agosto de 2005. Hoje, às oito, terei que estar na faculdade… Poderia estar dormindo desde as vinte e duas, mas não o fiz. Disse-me a mim que estudaria, mas não o fiz (como podes perceber). Aliás, minhas promessas andam valendo menos do que as de um estelionatário. Confio em mim menos do que em qualquer outro mortal. Essa é uma das facetas de meu comportamento louco… Insano.

Tamanho e tão louco estou que, mesmo aqui, a conversar contigo, sinto uma imensa necessidade de parar. Qualquer possibilidade de progresso, de melhoria real, me é barrada por uma força estranha- que não estou bem certo se sou eu – mas que me impede de agir. Tudo o que é bom para mim é imediatamente rejeitado e convertido em algo ruim. Se quero estudar, acabo por beber, se quero ser gentil, torno-me um asno de ranzinza, se quero apenas me concentrar em minha atividade presente, nada posso fazer a não ser pensar em todas as coisas do mundo ao mesmo tempo, escondendo-me na escuridão de minhas abstrações inexistentes… Confesso-te: vivo num inferno.

Não, nada do que te digo é novo. Nenhum desses comportamentos surgiu ontem, mas vêm de longa data… Fadigam-me por muito mais do que alguns dias.

Mas, essa é apenas a primeira carta, impossível é que diga mais do que foi dito hoje. Não tenho capacidade, e muito menos paz, para isso… Seguirei tentando abarcar o mundo com minha ignorância.

eu

•07 10, 2009 • Deixe um comentário

anjo_deprimido

Ora, quem precisa ler?
Quem precisa saber o que se passa em meu coração?
Quem se importa, quem?
Quem se importa com minha solidão?

Eu não posso desistir, a vida é curta.
Pelo menos é o que dizem
Essas palavras enxutas
De sentimentos, de ilusão.

Essa minha poesia
Idiota
Essa minha melodia
Torta
Essa minha imensidão.

Mas, até o som das teclas,
Até o ar que respiro
São menores,
São vampiros, que vem e me tomam.
Que me comem, que me somem,
Que fazem de mim um homem vão.

Ora, quem sou eu?
Será que sou o breu
Ou a chama?
Será que sou casto,
Ou sou da cama?

Esse fulgor, essa tristeza.
Esse vazio sem esperteza
Sem malícia
Sem o ar de quem ama.

Eu não amo ninguém!
E nunca em minha vida amei
Eu não quero nem vou amar ninguém!

Pois somente eu sei, somente eu vi… Somente eu pensei.
Pensei noites e dias, sem parar.
Sofri noites e dias, sem parar.
Vivi noites e dias, sem parar.

Hoje parei de amar,
Como já amei,
De saber,
Como já soube,
De ver,
Como já vi.
E de pensar,
Como já pensei.

Porque eu sou o único…
O único idiota que parou de viver tendo plena consciência disto.
Que parou de beber sabendo que beber não é um vício
Que parou de fumar, sabendo que fumar é apenas o início…
Do fim.

Será que alguém se importa?
Ou melhor,
Será que EU me importo com alguma coisa neste mundo?

(escrito aos 16 anos)

Cercado

•06 10, 2009 • Deixe um comentário

claustrofobia

Sinto-me cercado,

Encurralado dentro de mim.

 

Todos os meus sonhos,

Todas as minhas vidas,

São presas fáceis à minha paranóia

À realidade, que a mim se mostra.

 

A angústia que me traz essa realidade,

Que só eu posso ver,

Aprisiona-me em meu mundo irreal

 

Enclausurado, e sem esperanças, fico.

E apática toda minha vida se torna

Todo meu mundo se forma

em torno de meu medo essencial.

crônica de uma existência atormentada

•24 09, 2009 • Deixe um comentário

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Perco, em cada movimento dos ponteiros, minha capacidade de resistir. Sinto, a cada gota que cai, que diminuem minhas chances de fugir. Deixei-me, com meu niilismo moral, com meu ateísmo cristão, com meu Kant nietzschiano, cair pelo abismo do nada, em uma queda absurda rumo ao finito.

Perdi as esperanças em mim mesmo, a confiança no universo e a crença no futuro. Restou-me, de fato, apenas a culpa cristã e o sofrimento, humano. Mas, em uma contradição essencial - e quem sabe ninguém compreenda -, mantenho-me narciso. E choro.

(im)perfeita

•24 09, 2009 • Deixe um comentário

tracos_do_cotidiano

Mulher,

Encantam-me teus olhos negros,

Vesgos…

 

Enlouquece-me a tua roupa.

Rota.

Enlouquece-me o fel

Da tua boca.

 

Ah, como fascina,

Como é fascinante o teu olhar -

Que não sabe em quem se espelhar -

Fascina-me tua descompostura,

Tua feiúra!

 

Ah, fealdade que mata!

Teu corpo: sinônimo de errata

E tua cara:

Vara.

 

O que posso fazer se teus anéis são mais que os dedos?

Se tuas vestes são mais que as carnes?

Se teu suor não me livra do medo?

Saia, saia, saia antes que eu escarre!

 

Tu és mulher…

Mas não és bela.

Contudo, não é por isso que deixo de olhá-la,

Minha anti-cinderela!

 

Fito-a para ver como é perfeito o meu ser,

E rir-me da coisa tua,

Rir-me profundamente,

Oh feia criatura.!

Exposto

•22 09, 2009 • Deixe um comentário

timidez

Parece-me que minha imundice emana dos poros

Que minha maldade se pendura em outdoors.

Que minha iniqüidade é matéria de jornal

Que minha fealdade é exposição de arte moderna

Que minha fraqueza é lendária

Que minha desconfiança é ridícula

 

Sinto, a cada palavra que escrevo,

 a cada pensamento que tenho,

 a cada segundo que sou,

Que cometo um erro,

Que mostro o monstro

Que revelo o crápula

 

Sinto-me ridículo por sentir

Por ser quem sou

Por pensar o que penso

Por estar onde estou.

 

Mas,

Continuo…

Só não sei até quando.

nós e tudo o mais, ou a dor é real

•22 09, 2009 • Deixe um comentário

explosao

Somos um amontoado de substâncias químicas. Trilhões delas, formando bilhões de células. Essas, a princípio, são capazes de viver independentemente, mas ao invés disso, se juntam em um tipo de sociedade extremamente complexa, cuja interdependência é tamanha que, entendemos, formam um uno: nós mesmos.

Esse complexo uno que somos entende fazer parte de um todo muito maior: a sociedade humana, que é apenas uma dentre muitas outras de uma complexa e interdependente biosfera. A terra, local onde o magnífico fenômeno da vida acontece, é nada além de um pequeno planeta em um sistema estelar afastado, nos confins de uma galáxia perdida. Essa galáxia é uma entre as infinitas outras que compõem nosso universo. E, dizem, este é apenas um de vários outros possíveis, em não sei quantas dimensões.

Forma-se, portanto, um infinito ciclo, talvez de um todo também infinito, em que não se pode identificar começo nem fim. As estruturas maiores, de que abstratamente temos consciência, são nada além de representações das partes que as compõem (por exemplo: não existem galáxias sem estrelas, nem estrelas sem hidrogênio, nem hidrogênio sem átomos, e assim por diante).

Se por um lado isso significa que somos tão importantes quanto a poeira sob nossos pés, por outro, significa que nenhuma outra parte é mais ou menos importante que nós mesmos. Em um sistema sem começo ou fim, nada é o todo, nem nada é irrelevante. É um imenso fluir, um imenso ciclo.

Entretanto, apesar de o resultado dessa infinita equação ser zero, os fatores que a compõem estão longe de serem estáticos. É um equilíbrio dinâmico, do qual a vida é um belo exemplo. Nossas vidas dependem, necessariamente, da morte. Não seria possível a biosfera se a matéria orgânica não se reciclasse continuamente (isto é, sem a morte), sem mencionar a importância do processo evolucionário como meio de adaptação às transformações ambientais.

Essa explicação aparentemente científica, transcendental, metafísica, desconectada de nosso cotidiano é, na verdade, intimamente ligada a ele. Em nosso viver, esse ciclo gigantesco que compõe o universo surge como sangue e gozo, suor e riso, desespero atroz e felicidade indizível. O equilíbrio total não significa a harmonia das partes, muito menos a de nós mesmos. Nossas desgraças e a aparente anarquia de nossa sociedade se incluem perfeitamente dentro de um esquema muito maior. A morte, a solidão, a angústia, o tesão, a felicidade, a dor e a esperança são manifestações do dinamismo do todo. Nós também somos meras peças desse gigantesco quebra-cabeças, e a nossa morte também será a fonte de mais vida.

Não, não ocupamos um lugar de destaque no universo – doce a ilusão dos renascentistas – nem tampouco somos o nada que pretendem alguns pessimistas. Somos uma parte inevitável do todo, como todo o restante. E, como todo o restante, também nos equilibramos no dinamismo desse imenso fluir. Também nós sentimos o pulsar de explosões gigantescas em nosso interior, como as estrelas; também nos colidimos com nossos semelhantes, como as galáxias, ou simplesmente sucumbimos à velhice e damos lugar à vida nova, como as anãs marrons.

A diferença, todavia, é que nossa espécie inventou a moral, e aprendeu a racionalizar a dor. Tremenda desgraça a do ser humano que, preso no imenso círculo vital do universo, teme e sofre com todas suas variações. Nos é trágica a transformação, e fonte de desilusão nossas necessárias contradições. Nossa sorte nos é trágica pois nunca será a possível, a nenhum ser humano, ser eterno, em nenhum sentido. Por isso, como bem diz Tchekov, a dor é real.

Não Ser

•21 09, 2009 • Deixe um comentário

 nihil3 

 Conhecer o não ser

Não é, acreditem,

Engrandecedor,

Ou mesmo agradável

 

Saber que não se é

Nada tem que ver

Com o conhecer

Ou com o não conhecer

 

Saber que não se é,

 É saber-se

Sentir-se

Nada

 

Quem não é,

E sabe disso,

Vivencia a desesperança

Em seu grau mais alto

O niilismo, de fato.