suicídio

•12 08, 2011 • Deixe um comentário

a morte espera-me

para que deixá-la inquieta?

por que atar-me à vida

Quando nunca vivi?

 

Suicidar-me-ei

adio inutilmente o fim

despeço-me de todos

que me amaram

 

desculpo-me à minha filha,

por meu egoísmo e por não ser capaz de estar ao seu lado

desculpo-me a meu anjo

por dar-lhe dor.

 

Adeus.

infância

•15 02, 2010 • Deixe um comentário

Era óbvio o que ele pensava. Estava em seu olhar, no jeito de falar, nos comentários soltos, nas palavras faladas ao acaso. Aquela percepção abstrata se tornava concreta em raras ocasiões. Raras, mas violentamente fortes para mim: de uma violência surda, feita de pequenos gestos, de curtos olhares, de poucas palavras.

Fazia pouco que percebera tudo aquilo. Minha primeira reação foi fugir, mas não sabia direito para onde, não conseguia especificar ainda do que. Ainda era muito tênue a compreensão, pois tinha uma consciência excessivamente infantil de tudo aquilo.

Então, pra fugir daquela sensação, me refugiava nas coisas que mais gostava: nos meus pensamentos, nas palavras, nos textos, nas histórias, nos sonhos, nos livros, nas idéias. Comecei a me desconectar daquele mundo, pois enquanto apenas pensava era feliz. E ia longe, e me orgulhava. Mas, invariavelmente, o silêncio me chamava de volta. Odiava ter que voltar a pisar o chão e reviver a tirania dos olhares, dos bordões, dos silêncios… Da ausência.

E não pense que minhas fugas para mim mesmo passassem desapercebidas: ele fazia questão de destruir todo meu mundo particular: toda contemplação, todo prazer, toda descoberta, era imediatamente esmagada. Está errado! Besteira! Deixa de ser abestado! Toda a incomensurável humanidade que havia em mim era devidamente tolhida, todo o meu sentimento – sim, era um mar de sentimentos – tachado como coisa de mulher, ou de idiotas. Abestado! Abestado!

Ele queria-me diferente: as minhas fugas só o incomodavam mais. Tentei ser. A partir de então, e por muito tempo, tentei agradar, a qualquer custo. Tentava agradar a todos, sonhava ouvir um elogio. Talvez, se fosse muito bom, poderiam me elogiar a ele: eu precisava ser aceito, não importava a que preço.  Mas, diferentemente do que parece, nem eu me dava do que estava fazendo e, sem perceber, comecei a me negar. Negava tudo o que era, tudo o que queria. Não importava minha opinião real, não importava o que desejava, não importava o que sentia: só precisava agradar… Eu tinha que agradar.

Por um bom tempo foi assim. Mas os olhares eram os mesmos, os silêncios eram os mesmos, e tudo era cada vez mais óbvio à medida que minha percepção do mundo se tornava menos infantil. Ainda tentava agradar a todos, mas não mais conseguia ficar longe do meu refúgio: enfiava-me agora em histórias e biscoitos. Auto-flagelação, medo? Talvez.  Não importava. Já era claríssimo que não era eu.

Até que começou a chegar o tempo em que quis ser aceito em outros lugares. A escola foi o mais óbvio, e o primeiro deles. E tinha um trunfo na manga: minha já afiadíssima capacidade de agradar, em negação a qualquer desejo meu.  Então, ao invés de usar a minha capacidade para ser o melhor da turma, como me era muito fácil, tentei me juntar aos outros, aos normais. Mas, triste descoberta, eles também queriam o mesmo que ele: exatamente o que eu não era. Neguei-me ainda mais.

Fui então, a cada dia, buscando destruir tudo o que era. Parecia-me que o único caminho era destruir-me, mudar-me, inverter-me, afinal, tanto ele quanto os outros -meus colegas, e minhas colegas – pareciam querer exatamente o oposto de mim. Logo, o caminho correto, o caminho que me levará à aceitação, pensava eu, é o de ser exatamente o que não sou, e agradar a todos, naturalmente.

Mas foi sem sucesso. Como resultado posso dizer apenas que me Destruí. Não tive lá nem cá aceitação: era abominável para ambos os mundos. Em casa, não fui o filho esperado; entre os colegas, não era o amigo desejado. Meu semblante era feio e gordo demais, meus modos por demais gentis, meus gostos por demais cultos, minhas habilidades opostas às que queriam ver. Era a chacota. O objeto de riso, o idiota a quem pisar. A pessoa de quem se afastar. Destruí-me. Tentei, em cada palavra, em cada gesto, em cada ação, matar o monstro que rejeitavam: eu mesmo.

E, hoje, não sei muito bem o que sobrou disso tudo. Não sei mais onde termina a mentira, a máscara, e onde começo eu. Nem mais sei se existo, não sei o que sobrou de mim além da capacidade aguda de sentir. Destruí-me em todos os sentidos. Não sei mais pensar, nem nunca fui capaz de agradar às mulheres. Perdi a força inquebrantável dos sonhos, e não ganhei em troca a malandragem cotidiana dos que vivem no mundo real. Sou uma sombra. Incapaz de aceitar a mim mesmo, e de conviver com os outros.

Vivo hoje nas sombras dos meus medos, na desesperança e  solidão absurda de quem se odeia profundamente.

•06 02, 2010 • Deixe um comentário

Não.
Não há ninguém.
Não,
Não há ninguém…

Escuto:
Não.
GRITO!!

Não.

Sussurro:
Não.
Procuro,
Falo…
Não.

Posso falar quaisquer palavras,
Gritar quaisquer absurdos!
Trancar-me no meio da rua…
Ninguém. Ninguém.

vão.

Estou só.
Perdido.
e minha ilha é cercada por mares
de gente,

Estou só.
Em meu abismo inconsciente
Em minha insignificância translúcida
- Com meu medo já quase aparente –

Estou só.
Escrevendo textos que ninguém lê.
Falando palavras sem porquê
Esperado, esperando…
O que?

O Espelho

•05 02, 2010 • Deixe um comentário

Leio, perdidamente,
O profundo livro que se me pôs à mão;
Ouço, longamente, à insana canção e
feliz, deixo, por um instante, de ser vão;

Levanto-me então altivo,
e vou à terra conquistar.
Sinto-me capaz, livre, bendito:
não há caminho que não possa trilhar.

Mas, acontece, e não há real motivo,
de no caminho o espelho estar.
Embebedado que estava pela esperança,
leva ainda alguns segundos até despertar

Em meu fulgor esqueci-me do que era,
e do que sempre me fez perecer.
Assim, de repente, tive que voltar à vida,
e o peso fez-me o corpo pender.

É que rapidamente vieram-me lembranças
de palavras, frases, olhares, sensações,
percorreram-me a alma com intensidade,
e levaram consigo minhas breves contemplações.

Coloquei-me então a fitar, tal qual criança,
A face feia no espelho:  Meus defeitos,
- minha incurável discrepância –
Meu eu, meu insólito viveiro.

Mas não foi longo o torpor,
É que em meus olhos logo brotaram lágrimas;
E o desdém amigo
Veio dissipar-me a dor.

invisível

•25 01, 2010 • Deixe um comentário

Sempre que olho de soslaio, discretamente,
os olhos de uma linda mulher
ou a face bela que me envolve a mente

ou quando me ponho a ver,
de modo a não ser notado,
a beleza, tanta, que mal posso crer,
sinto no peito indizível estado

Então, para ninguém perceber,
mantenho-me tímido, quieto,
e percebo, aflito, no peito já duro,
o triste desalento dos dias incertos;

É que não creio mais nos sonhos meus:
Em novos dias já não posso acreditar.
E assim, vivo a olhar
montanhas que não posso alcançar

Vida Real

•25 01, 2010 • Deixe um comentário

“No turbilhão da vida são felizes aqueles
que presumindo saber tudo não se instruem.
Fui buscar os segredos do Universo e voltei
invejando os cegos que encontrei pelo caminho”

Omar Khayyám

Não é filosoficamente incorreto dizer que não existe uma coisa que possamos verdadeiramente chamar de vida real. Kant, Hume, Descartes, e vários outros filósofos após eles, argumentaram, com razão, que não é possível apreendermos a realidade tal qual ela é. Entretanto, tenhamos nós, ou não, contato com o mundo exterior à nossa caixa craniana, é fácil perceber na vida cotidiana uma diferença substancial entre nossas elucubrações acerca do mundo e o mundo tal qual ele se nos apresenta – ainda que não seja o mundo “real”, no sentido filosófico do termo.

Nas belas idéias de boa parte da literatura e de toda religião, o mundo é posto como um complicado romance em que o final será, invariavelmente, feliz. “Deus escreve certo por linhas tortas”, “nada acontece por acaso”, etc, etc, etc. Esperamos, consciente ou inconscientemente, com mais ou com menos esperança, que os desencontros e injustiças do hoje sejam devidamente corrigidos e reparados no futuro, neste ou em outro mundo, nesta ou em outra vida.

Essas idéias permeiam a sociedade e nos são ditas a todo momento, desde a mais tenra infância. São, talvez, a mais eficaz droga já inventada pelo ser humano: um ópio sem igual. Entretanto, para aqueles com coragem e inteligência suficiente, um olhar mais atento ao cotidiano – ou anos de estudo sério de filosofia, literatura e ciência- mostrarão que nossa pílula da felicidade não passa de um mal feito frasco de placebo.

E, sabendo disso, como se parece o cotidiano? Na vida real (essa que Kant, Hume e Descartes negaram tão convincentemente) não vemos escolhas corretas, nem ações verdadeiramente justas, ou, muito pior, não nos aparece um conforto real ante as pequenas e grandes injustiças do cotidiano.

Na vida real, o rapaz feio, por mais que espere, não terá a bela e sensível Cinderela, que vê para além das aparências, a lhe roubar um beijo tímido, em prenúncio ao amor eterno. Na vida real, o estereótipo lhe ferirá o tempo todo, e, na imensa maioria das vezes, ninguém saberá o que você realmente é ou o que realmente deseja. Na vida real, a zombaria alheia terá que ser, quase sempre, engolida a seco e levada para a cama, talvez em forma de azia.

Não há planos, nem respostas, nem escolhas certas. Não há um caminho, não há uma direção. Os corpos se multiplicam, as injustiças não são contáveis, mas, ainda assim, esperamos, no fundo de nossos humanos corações, uma reparação, uma resposta, uma reconciliação… Não, nós humanos, de fato, não temos contato com o mundo tal qual ele é: não somos capazes disso.

se eu sesse*

•23 01, 2010 • Deixe um comentário

Se um dia eu nascesse bicho,

disso muito eu gostaria;

Seria sapo, calango, pexe

Muitos bicho ah, sim, eu seria…


Mas nascê bicho home?

ah, isso eu não queria!

Bicho homem é traiçoeiro,

cheio de safadaria.


pois se eu pudesse iscoiê,

muito pouco veveria,

seria criança por toda vida

e assim, sim,  me satisfaria.


mas se eu sesse um passarinho…

isso me traria muita aligria,

pois avoaria sobre os campo,

sobre as casa avoaria;


eu ia vivê lá no céu,

filiz todos os dia.


e sei que um dia, de tanto avoá,

em sua casa eu chegaria.

Ia pousá na tua janela, e a olhá-la me perderia

Seria um olhá tão apaixonado que nem sê

beija-flô mais eu num queria


é que é tão grande a tua buniteza

e tão transparente essa paixão minha

que, pra beijá-la como beijava a flô,

até sê gente eu quereria!

* baseada na obra do mestre Patativa do Assaré.

O simpático

•18 01, 2010 • Deixe um comentário

O Brasil é um país em que a bondade é levada a sério. Aqui, as pessoas são divididas, criteriosamente, entre bons e os maus. Até aí nada  surpreendente… Afinal, não somos, certamente, a primeira sociedade maniqueísta do mundo.

Entretanto, a forma como se diferencia um grupo do outro é que chama a atenção: não é pela a honestidade, trabalho, coragem ou inteligência que um indivíduo será considerado bom.  Aqui, o que faz alguém louvável, admirável ou bem quisto é a simpatia.  Sim: a simpatia. E nossa simpatia tem a ver com  o “deixar passar”, em uma concepção completamente diferente da do laissez-passer dos franceses.

Explico-me. Para nós, brasileiros, a percepção da bondade alheia não está relacionada ao caráter, na concepção tradicional do termo. Na verdade, ela vai buscar esteio na capacidade de  uma pessoa  de ser boa-praça, de sorrir fácil e falsamente, de fazer favores, de não julgar ninguém.  Tanto é assim que em um grupo qualquer de amigos, ao se introduzir um novo indivíduo, ele é logo avaliado  como sendo, ou não, “gente boa”. E todo indivíduo se esmera para sê-lo. E o que é ser “gente boa” (ou seja, o que é ser uma boa pessoa)?

O agir do “boa gente”, na concepção brasileira, se opõe aos comportamentos austeros. O “boa gente” rejeita a intolerância às desonestidades típicas. Para ser “gente boa”, é preciso tentar agradar; é preciso dizer sim em nome da boa convivência. É boa gente o homem que facilita a vida de um colega na fila, em detrimento de outras pessoas que chegaram mais cedo; é boa gente o homem que ignora comportamentos imorais de seu próximo; é  boa gente o homem que deixa de aplicar a lei em nome da simpatia ou que se mantém calado ante os “jeitinhos”.

O homem mau, por outro lado, para o brasileiro, é aquele que insiste em “ser caxias”. É aquele que ousa cumprir a Lei,  que não sorri ou que não finge não ver a imoralidade alheia. Esse tipo, pensamos nós brasileiros, é um chato, alguns até  o chamam de canalha, calhorda, ou otário. Certamente o tipo de pessoa com o qual não queremos conviver.

E veja que a cultura da simpatia invade todos os ramos de nossa sociedade e se sobrepõe a todos os valores propriamente filantrópicos. Basta olhar, para tanto, os nossos corruptos. Não é sem razão que os bem sucedidos nessa arte são, invariavelmente, simpáticos, e amealham o bem-querer de muitos.

De fato, chega a ser chocante conhecer pessoalmente um desses figurões cujos crimes são notórios. Esse tipo é sempre o mais afável dos homens. Tamanha sua amabilidade que chega-se a ter vontade de convidá-lo a sentar-se à varanda e conversar amenidades, ou alardiar as morenas que caminham pela rua.

Creio que a deturpação da idéia de bondade entre nós é tamanha que até mesmo assassinos, ladrões e mentirosos podem viver felizes e bem-quistos enquanto forem simpáticos, ou seja, enquanto forem “boa gente”. Os mais inteligentes aprenderam isso de forma exemplar,  e, espelhando-se em um grande político paulista cujo slogan é “estupra, mas não mata”, fizeram carreira, fortuna e amigos.

Não é à toda que o saudoso Nelson Rodrigues dizia: “todo canalha é simpático”. Ora, não nos esqueçamos, o Brasil é o país da simpatia.

hai kai

•08 10, 2009 • Deixe um comentário

folha_ao_vento

Observo.

o vento sopra

a folha gira

a folha cai

Carta a meu alter-ego

•08 10, 2009 • Deixe um comentário

o-alienista

Caríssimo Alter-ego,

Quanto tempo! Há muito não me dirijo a ti. Mas, sabes, os tempos não são de calmaria. Minha alma não anda para felicidades, nem minha mente para conversações.

Meu caro amigo, se tu soubesses o quanto ando confuso, o quanto as coisas me parecem caminhar por si mesmas. Ou melhor, não diria que as coisas caminham por si sós, mas que eu as faço caminharem por si mesmas. Acho que criei um Hegelianismo-comtiano pessoal… Estou tentando me enfiar nas leis da história, tentando crer, a qualquer custo, que meu futuro está irremediavelmente traçado e que minha capacidade é irremediavelmente insuperável, que todo o torpor é nada além de coisa de momento…Louco! Há vezes em que creio que sou louco…

Não te rias de mim! Não me interpoles logo no início… Deixe-me falar, deixe-me contar o que se passa, desabafar minhas loucuras, dizer-te meus sentimentos tão surreais…Far-me-á bem, estou certo. Portanto, se realmente gostas de mim, deixe-me dizer-te essas coisas tão absurdas e insanas que parecem sair de mim a cada passo que dou, a cada respiro. Não! Não te enfadonhes, não permitirei.

Bem. Melhor será se organizar minhas idéias, não é mesmo? Que tal começarmos pelo agora, deixando o antes para depois? Ótimo. Ótimo que concordes comigo. Contar-te-ei do presente momento, creio que é um bom começo falar do agora porque ele já será passado quando lerdes isso, de forma que não te estarei, em qualquer hipótese, a contar o futuro.

Caro,

Estou neste momento sentado em frente a meu computador, digitando. Claro! Ainda não tenho sistema de escrita via voz, e, até onde eu saiba, tal sistema ainda merece bons melhoramentos antes de tornar-se comum. Pois bem. Agora são uma hora e onze minutos da manhã de segunda-feira, dia oito de agosto de 2005. Hoje, às oito, terei que estar na faculdade… Poderia estar dormindo desde as vinte e duas, mas não o fiz. Disse-me a mim que estudaria, mas não o fiz (como podes perceber). Aliás, minhas promessas andam valendo menos do que as de um estelionatário. Confio em mim menos do que em qualquer outro mortal. Essa é uma das facetas de meu comportamento louco… Insano.

Tamanho e tão louco estou que, mesmo aqui, a conversar contigo, sinto uma imensa necessidade de parar. Qualquer possibilidade de progresso, de melhoria real, me é barrada por uma força estranha- que não estou bem certo se sou eu – mas que me impede de agir. Tudo o que é bom para mim é imediatamente rejeitado e convertido em algo ruim. Se quero estudar, acabo por beber, se quero ser gentil, torno-me um asno de ranzinza, se quero apenas me concentrar em minha atividade presente, nada posso fazer a não ser pensar em todas as coisas do mundo ao mesmo tempo, escondendo-me na escuridão de minhas abstrações inexistentes… Confesso-te: vivo num inferno.

Não, nada do que te digo é novo. Nenhum desses comportamentos surgiu ontem, mas vêm de longa data… Fadigam-me por muito mais do que alguns dias.

Mas, essa é apenas a primeira carta, impossível é que diga mais do que foi dito hoje. Não tenho capacidade, e muito menos paz, para isso… Seguirei tentando abarcar o mundo com minha ignorância.

 
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