
Somos um amontoado de substâncias químicas. Trilhões delas, formando bilhões de células. Essas, a princípio, são capazes de viver independentemente, mas ao invés disso, se juntam em um tipo de sociedade extremamente complexa, cuja interdependência é tamanha que, entendemos, formam um uno: nós mesmos.
Esse complexo uno que somos entende fazer parte de um todo muito maior: a sociedade humana, que é apenas uma dentre muitas outras de uma complexa e interdependente biosfera. A terra, local onde o magnífico fenômeno da vida acontece, é nada além de um pequeno planeta em um sistema estelar afastado, nos confins de uma galáxia perdida. Essa galáxia é uma entre as infinitas outras que compõem nosso universo. E, dizem, este é apenas um de vários outros possíveis, em não sei quantas dimensões.
Forma-se, portanto, um infinito ciclo, talvez de um todo também infinito, em que não se pode identificar começo nem fim. As estruturas maiores, de que abstratamente temos consciência, são nada além de representações das partes que as compõem (por exemplo: não existem galáxias sem estrelas, nem estrelas sem hidrogênio, nem hidrogênio sem átomos, e assim por diante).
Se por um lado isso significa que somos tão importantes quanto a poeira sob nossos pés, por outro, significa que nenhuma outra parte é mais ou menos importante que nós mesmos. Em um sistema sem começo ou fim, nada é o todo, nem nada é irrelevante. É um imenso fluir, um imenso ciclo.
Entretanto, apesar de o resultado dessa infinita equação ser zero, os fatores que a compõem estão longe de serem estáticos. É um equilíbrio dinâmico, do qual a vida é um belo exemplo. Nossas vidas dependem, necessariamente, da morte. Não seria possível a biosfera se a matéria orgânica não se reciclasse continuamente (isto é, sem a morte), sem mencionar a importância do processo evolucionário como meio de adaptação às transformações ambientais.
Essa explicação aparentemente científica, transcendental, metafísica, desconectada de nosso cotidiano é, na verdade, intimamente ligada a ele. Em nosso viver, esse ciclo gigantesco que compõe o universo surge como sangue e gozo, suor e riso, desespero atroz e felicidade indizível. O equilíbrio total não significa a harmonia das partes, muito menos a de nós mesmos. Nossas desgraças e a aparente anarquia de nossa sociedade se incluem perfeitamente dentro de um esquema muito maior. A morte, a solidão, a angústia, o tesão, a felicidade, a dor e a esperança são manifestações do dinamismo do todo. Nós também somos meras peças desse gigantesco quebra-cabeças, e a nossa morte também será a fonte de mais vida.
Não, não ocupamos um lugar de destaque no universo – doce a ilusão dos renascentistas – nem tampouco somos o nada que pretendem alguns pessimistas. Somos uma parte inevitável do todo, como todo o restante. E, como todo o restante, também nos equilibramos no dinamismo desse imenso fluir. Também nós sentimos o pulsar de explosões gigantescas em nosso interior, como as estrelas; também nos colidimos com nossos semelhantes, como as galáxias, ou simplesmente sucumbimos à velhice e damos lugar à vida nova, como as anãs marrons.
A diferença, todavia, é que nossa espécie inventou a moral, e aprendeu a racionalizar a dor. Tremenda desgraça a do ser humano que, preso no imenso círculo vital do universo, teme e sofre com todas suas variações. Nos é trágica a transformação, e fonte de desilusão nossas necessárias contradições. Nossa sorte nos é trágica pois nunca será a possível, a nenhum ser humano, ser eterno, em nenhum sentido. Por isso, como bem diz Tchekov, a dor é real.